ORAÇÃO NA CALÇADA
Era uma manhã fria, dessas em que o sol hesita em se impor sobre os prédios cinzentos de São Paulo. A caminho do trabalho, entre buzinas e passos apressados, vi algo que me fez desacelerar: quatro jovens haitianos, na faixa de 13 ou 14 anos, roupas surradas, tênis gastos, mas com uma alegria que não se compra. Brincavam entre si com a leveza de quem, apesar das dificuldades, ainda encontra espaço para o riso.
Tinham a energia típica de quem acabou de sair de um treino de futebol, talvez de alguma quadra de esportes improvisada no bairro, quem sabe sejam moradores de algum imóvel invadido no centro da cidade, desses que abrigam sonhos em meio ao concreto. Chamei um deles, tirei do bolso uma quantia modesta, quase simbólica e a entreguei para que pudessem comprar um lanche, um gesto pequeno, quase automático.
Mas o que aconteceu depois me desarmou. Eles se adiantaram uns 10 metros, formaram um círculo na calçada, se abraçaram e começaram a orar. Ali, entre carros, pressa e indiferença, ergueram suas vozes em agradecimento a Deus. Não pediam mais, apenas agradeciam. A cena, tão simples e tão poderosa, me deu uma bofetada suave: eu, que tantas vezes esqueço de agradecer pelo que recebo, fui lembrado por quem tem tão pouco e ainda assim reconhece tanto.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)