RECIFE, ANOS 70
Na Praia de Boa Viagem,
o sol grudava na pele e nas ideias,
Casa Amarela ardia em cores quentes,
Tamarineira delirava em sombra e sol.
No Bar Savoy, jogava conversa fora,
como quem joga búzios,
profecias de cachaça e riso.
A Pracinha da Independência,
era o meu ponto de fuga,
onde o tempo fingia não passar.
Meus prazeres no Buraco de Otília
cheiro, paladar e gula,
sem culpa, sem freio, sem fim.
E no meu primeiro Galo da Madrugada,
havia mais Recife do que gente,
mais ritmo e cadência que algazarra.
Recife me vestia de vento e desejo,
pelas ruas da Tamarineira,
onde o tempo escorria lento
como uma tarde de domingo.
Ceia nordestina no Pátio de São Pedro,
com carne de sol, macaxeira e saudade,
era banquete de memória e chão,
onde Recife me servia com devoção.
E eu, no compasso do Galo da Madrugada,
era tambor, era frevo, era improviso,
Recife pulsando em mim,
feito mar que nunca se cala.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)
São Paulo, novembro de 1982