EM PARIS NÃO TEM DISSO, NÃO.
Se tem uma coisa que não se brinca no Ceará, é com comida. Aqui, o paladar tem sotaque, tem história, tem calor de fogão à lenha e cheiro de quintal. E não me venha com esse papo de risoto trufado ou salmão defumado em madeira de carvalho, que aqui a gente defuma é a alma com tripa de porco frita e baião de dois que faz o coração bater acelerado.
Tapioca com carne assada? Isso não é lanche, é declaração de amor. Angu com leite? É abraço de vó em forma de prato. Arroz com tutano de osso de boi? É o tipo de coisa que faz francês largar o foie gras e pedir bis. E bolo de leite com Cajuina São Geraldo? Ah, meu amigo, isso é merenda com diploma de doutorado em tradição.
A água de quartinha, gelada na medida certa, é mais refrescante que qualquer coquetel de hotel cinco estrelas. E quem nunca merendou farinha com mel de engenho, não sabe o que é viver com gosto.
Sarapatel? Isso é feitiço em panela de barro. É o tipo de prato que levanta até defunto e faz vegano repensar a vida. Cuscuz com ovo? É o café da manhã dos campeões, dos vaqueiros, dos estudantes atrasados e dos poetas famintos. Bucho de bode? Isso aí é diploma de cearense raiz. Quem encara uma buchada com farinha seca e pimenta, encara qualquer coisa na vida, até fila de banco sem ar-condicionado.
E se você nunca se lambuzou com carne de sol na manteiga de garrafa, ladeada por macaxeira quentinha, aquela que vem até com pavio, então ainda não entendeu o que é conforto em forma de refeição. Jerimum com leite? Meu Deus! Isso é poesia cremosa, é carinho servido em prato fundo, é o tipo de coisa que faz até o mais enfezado soltar um "ôxe, que delicia!"
Aqui, comida não é só sustança. É identidade, é resistência, é afeto servido em prato fundo. E quem nunca sujou os dedos com gordura de tripa frita, nem lambeu o prato de baião de dois com queijo de coalho, não tem moral para falar de gastronomia. Que vá comer salada de quinoa e deixar a gente em paz com nossa cajuína gelada e nosso bolo de puba.
Porque, no Cariri do meu Ceará, cada receita é uma história contada em fogo baixo. E cada garfada é um "oxente!" de felicidade. E se duvidar, a gente ainda manda um torresmo de brinde pra trovejar na boca dos metidos a besta.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)