ENQUANTO AINDA HÁ TEMPO
Filho,
Hoje sentei-me na varanda, como faço todos os dias, e fiquei olhando para o portão. Ele ainda range quando se abre, você lembra? Sempre prometeu que iria consertá-lo. Mas ele continua rangendo, sozinho, como eu.
O tempo passou depressa, meu menino. Você cresceu, criou asas e voou. E eu fiquei aqui, com as lembranças e o silêncio. Não reclamo da sua vida corrida, dos compromissos, da agitação do mundo lá fora. Só sinto falta de ouvir sua voz ecoando pela casa, de ver seu sorriso entrando pela porta, de sentir aquele abraço que me fazia esquecer as dores do corpo e da alma.
Não quero ser lembrado apenas no Dia de Finados, como flores frias e preces apressadas. Quero ser lembrado em vida, com um café quente, uma conversa boba, um olhar sincero. Porque depois, meu filho, depois só restará o vazio. E aí, por mais que você venha, já não estarei aqui para abrir a portão.
Venha. Antes que o tempo feche a porta que ainda esta entreaberta. Antes que o silêncio se torne definitivo. Ainda estou aqui, esperando. E o portão... ainda range.
Com saudade,
Seu pai.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)