AS RUAS QUE BRINCAVAM
Juazeiro do Norte já foi um quintal sem muros. Um lugar onde as ruas tinham nomes, mas também tinham alma. A Rua Boa Vista, com seu chão batido e sombra dos pés de benjamins, era território das bonecas, bolas e caçadas às borboletas. A Rua da Glória vibrava com o som das gargalhadas no esconde-esconde, onde cada poste era esconderijo e cada esquina, abrigo.
Na Rua São Jorge era palco do chicotinho queimado, onde o medo e a coragem se misturavam em gritos e corridas. Na Rua São Luiz, o futebol de botão reinava nas calçadas, com botões de todas as cores e tamanhos virando craques e caixas de fósforos virando goleiros. Já a Rua Santa Isabel e a Rua Santa Luzia eram campos de bola, bola de meia, bola de borracha, bola de qualquer coisa que rolasse e fizesse gol entre duas sandálias japonesas.
Os meninos e meninas não tinham sobrenome. Eram filhos de Seu José dos Santos, Dona Ritinha, de Seu Totô, de Dona Didi, de Dona Quininha, de Seu Nino, de Seu Caetano, de Dona Enedina. Misturados em idades, cores e tamanhos, inventavam o dia com o que havia: uma corda virava brinquedo, uma lata de sardinha virava um carrinho, uma sombra virava um espaço de recreio, um botão virava craque de futebol, um bambolê se tornava uma disputa entre as meninas.
Mas os meninos sumiram. As ruas tristes se vestiram de preto sob o manto do asfalto. O silêncio tomou conta das calçadas onde antes ecoavam cantigas e desafios. As portas se cerraram, as plantas morreram, e as telas brilhantes dos celulares apagaram o brilho dos olhos curiosos.
Hoje, quem passa pelas ruas Boa Vista, da Glória, São Jorge, São Luiz, Santa Luzia, ou pela Santa Isabel talvez não veja nada. Mas quem viveu sabe: ali ainda mora a memória. A lembrança de um tempo em que Juazeiro do Norte era um grande playground a céu aberto. Um tempo em que as ruas brincavam com as brincadeiras dos meninos.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)