Benedito Morais de Carvalho(Benê)
NÃO SOU POETA, SOU UM ARRUMADOR DE PALAVRAS.
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POETA DA ESQUINA

 

Sobrevivi.

E isso já devia bastar.

 

Quebrei a cara nas esquinas

das cidades grandes,

onde o concreto não perdoa,

onde o olhar é duro,

onde o passo é rápido demais

pra enxergar quem cai.

 

Driblei as drogas

como quem dança com o diabo,

sem música, sem aplauso,

só o  silêncio da morte rondando.

 

Fui chamado de retirante,

como se minha terra fosse pecado,

como se o sol do Nordeste

queimasse minha dignidade.

Preconceito veio em forma

de riso amarelado,

de tapinhas nas costas e porta fechada,

de emprego negado

por não ser de boa aparência.

 

Vi a fome estendida nas calçadas,

e cobertor de papelão,

como berço de criança sem nome.

 

Vi a roubalheira do dinheiro público

correndo a solta,

feito rio que nunca chega no povo.

Vi a corrupção nadando a braçadas,

campeã olímpica da vergonha.

E a impunidade?

Ah, essa gargalhava alto,

como se dissesse:

"Vocês não têm vez."

 

E agora você me cobra poesia doce?

Quer que eu fale de flores,

de amores, 

de beleza que nunca vi?

 

Eu sou o poeta da sarjeta,

o cronista do caos,

o filho da revolta.

 

Minha rima é grito.

Minha métrica é dor.

Minha poesia é ácida,

porque minha vida foi amarga.

 

Não me peça leveza,

quando o que carrego é peso.

Não me peça beleza,

quando o que vi foi feiura.

 

Sou poeta, sim.

Mas sou poeta de esquina.

Poeta do muro pichado.

Poeta maldito.

Poeta de quem sobrevive.

 

E se grito,

é porque o silêncio me mataria.

 

Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)

São Paulo, 1994

20 de outubro: Dia do Poeta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Benedito Morais de Carvalho (Benê)
Enviado por Benedito Morais de Carvalho (Benê) em 16/11/2025
Alterado em 16/11/2025
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