O NATAL DOS DESVALIDOS
O sol de fim de tarde dourava prédios no Centro de São Paulo, mas não aquecia o espírito. Sai de casa sem grandes expectativas, apenas para ver os enfeites natalinos. O que encontrei foi um cenário de contrastes: ruas em obras, poeira no ar, na calçada da prefeitura, um Papai Noel gigante exibia uma bunda desproporcional, lembrando a do jogador Hulk. A cena era grotesca quase caricata. No Viaduto do Chá, mães pedintes orientam seus filhos a vender balas para conseguir esmolas.
A sua volta, a cidade mostrava sua face mais dura. Calçadas coalhadas de moradores de rua, estendendo as mãos em busca de caixinhas natalícias. Dependentes vagando como zumbis, perdidos em seus próprios labirintos e lojas, uma após a outra com placas de aluga-se, como se o comércio também tivesse desistido de celebrar o natal. O brilho dos enfeites não conseguia esconder a sombra da miséria.
Voltei para casa desolado, carregando comigo a sensação de que o Natal, ali, não era festa, mas abandono. Um Natal dos desvalidos, onde o riso plástico dos enfeites contrasta com o silêncio pesado da exclusão.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)