RAMBO NOEL DO EXÉRCITO
Naquele longínquo 1970, na capital alencarina, eu descobri que o Exército tinha planos muito mais criativos para mim do que qualquer manual de guerra poderia prever. Com o meu 1,65m de pura resistência, pele e osso simplesmente, e uma boa dose de teimosia, fui convocado não para enfrentar batalhas épicas, mas para uma missão ainda mais desafiadora: encarnar o Papai Noel do quartel.
E lá estava eu, vestido de vermelho, barba postiça que coçava mais do que treinamento em sol de meio-dia, enfrentando uma tropa mirim que não conhecia piedade. Beliscões nas nádegas aplicados com precisão militar pelos filhos dos sargentos, chutes nos dois sacos disparados como granadas pelos pestinhas filhos dos oficiais... e eu, firme, sem recuar, porque ordem superior não se discute, se cumpre.
Foi nesse momento que percebi: eu não era apenas um recruta, eu era o primeiro Rambo das forças armadas, treinado não para a selva, mas para sobreviver ao Natal do quartel. Um guerreiro que trocava balas de fuzil por balas de açúcar, granadas por pirulitos e trincheiras por filas intermináveis de crianças ansiosas.
Hoje penso: se tivesse sido enviado à linha de frente da guerra do Vietnã, talvez minha arma fosse um saco de presentes. Porque nada desarma mais rápido um inimigo do que um Papai Noel sorridente, resistente, que encara chutes nos dois sacos e beliscões nas nádegas como quem enfrenta tanques e granadas.
No fim, minha verdadeira convocação foi para a guerra da paciência e da brincadeira. E nessa batalha, saí vitorioso, carregando até hoje a medalha invisível do Rambo do Exército Brasileiro.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)