Benedito Morais de Carvalho(Benê)
NÃO SOU POETA, SOU UM ARRUMADOR DE PALAVRAS.
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O Caminhoneiro e a Loja Maçônica

 

     Naquela noite abafada do sertão, quando até os grilos já tinham desistido de cantar, um caminhoneiro bateu à porta de uma casa discreta, dessas que parece sempre guardar um segredo. Era a loja maçônica da cidade, onde os irmãos se reuniam para discutir assuntos elevados, ou pelo menos fingir que eram elevados.

     - De onde vindes, meu irmão: perguntou o guarda da casa, com voz solene, como se estivesse diante de um ritual milenar.

     - Venho de Barbalha, meu prezado senhor.

     O guarda ajeitou o avental, tentando manter a compostura.

     - E o que trazeis, meu irmão?

     - Uma carrada de abacaxi para entregar ao seu Louro lá na Rua de São João. E não precisava o senhor me atender com o espeto na mão.

     A resposta caiu como um trovão na sala. Os obreiros irmãos se entreolharam: abacaxi? Louro? São João? Seria uma metáfora iniciática? Um símbolo oculto? Ou apenas fruta mesmo?

     - Nada mais trazeis? Insistiu o guarda da casa, já desconfiado.

     - Não é de sua conta o que mais carrego, senhor! - retrucou o caminhoneiro, com firmeza de quem sabe que o caminhão Fenemê não se move sozinho.

     Os maçons, acostumados a enigmas, começaram a interpretar:

     - O abacaxi representa os problemas da vida.

     - O Louro, a vitória.

     - São João, padroeiro da maçonaria.

     - O caminhão Fenemê, o veículo da existência.

     Enquanto eles filosofavam, o caminhoneiro já suava em bicas.

     - O que se faz nessa casa meu senhor? perguntou o caminhoneiro, meio impaciente.

     - Cultivamos a luz , meu irmão. Respondeu o guarda.

     - Pois eu cultivo é o diesel, senhor. Não tenho casa. Tenho esse velho caminhão.

     O guarda, tentando manter o cerimonioso:

     - E o que vindes aqui fazer?

     - Procurar ajudar senhor. Respondeu o caminhoneiro.

     - E o que desejais, meu irmão?

     - Alguém que me ajude a empurrar meu caminhão! Respondeu o visitante nervoso.

     Silêncio total. Os irmãos se entreolharam, alguns já ajeitando o compasso e o esquadro, os neófitos pensando se empurrar o caminhão fazia parte do ritual. O venerável mestre pigarreou.

     - Meus irmãos, eis que o verdadeiro trabalho maçônico: transformar o peso do mundo em movimento. Quem está disposto a empurrar o Fenemê do profano?

     E lá se foram todos, de avental e luvas, empurrando o caminhão pela rua deserta. O caminhoneiro aliviado, agradeceu:

     - Nunca pensei que a maçonaria fosse tão prática.

O venerável mestre respondeu, ofegante:

     - Pois é, meu senhor, Aqui a gente não só ilumina, também dá tranco no caminhão.

     E assim, naquela noite, a loja maçônica descobriu que o maior segredo da fraternidade não estava nos rituais, mas na força coletiva para empurrar um caminhão carregado de abacaxis.

 

Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)

     

 

 

 

Benedito Morais de Carvalho (Benê)
Enviado por Benedito Morais de Carvalho (Benê) em 05/12/2025
Alterado em 05/12/2025
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