O Caminhoneiro e a Loja Maçônica
Naquela noite abafada do sertão, quando até os grilos já tinham desistido de cantar, um caminhoneiro bateu à porta de uma casa discreta, dessas que parece sempre guardar um segredo. Era a loja maçônica da cidade, onde os irmãos se reuniam para discutir assuntos elevados, ou pelo menos fingir que eram elevados.
- De onde vindes, meu irmão: perguntou o guarda da casa, com voz solene, como se estivesse diante de um ritual milenar.
- Venho de Barbalha, meu prezado senhor.
O guarda ajeitou o avental, tentando manter a compostura.
- E o que trazeis, meu irmão?
- Uma carrada de abacaxi para entregar ao seu Louro lá na Rua de São João. E não precisava o senhor me atender com o espeto na mão.
A resposta caiu como um trovão na sala. Os obreiros irmãos se entreolharam: abacaxi? Louro? São João? Seria uma metáfora iniciática? Um símbolo oculto? Ou apenas fruta mesmo?
- Nada mais trazeis? Insistiu o guarda da casa, já desconfiado.
- Não é de sua conta o que mais carrego, senhor! - retrucou o caminhoneiro, com firmeza de quem sabe que o caminhão Fenemê não se move sozinho.
Os maçons, acostumados a enigmas, começaram a interpretar:
- O abacaxi representa os problemas da vida.
- O Louro, a vitória.
- São João, padroeiro da maçonaria.
- O caminhão Fenemê, o veículo da existência.
Enquanto eles filosofavam, o caminhoneiro já suava em bicas.
- O que se faz nessa casa meu senhor? perguntou o caminhoneiro, meio impaciente.
- Cultivamos a luz , meu irmão. Respondeu o guarda.
- Pois eu cultivo é o diesel, senhor. Não tenho casa. Tenho esse velho caminhão.
O guarda, tentando manter o cerimonioso:
- E o que vindes aqui fazer?
- Procurar ajudar senhor. Respondeu o caminhoneiro.
- E o que desejais, meu irmão?
- Alguém que me ajude a empurrar meu caminhão! Respondeu o visitante nervoso.
Silêncio total. Os irmãos se entreolharam, alguns já ajeitando o compasso e o esquadro, os neófitos pensando se empurrar o caminhão fazia parte do ritual. O venerável mestre pigarreou.
- Meus irmãos, eis que o verdadeiro trabalho maçônico: transformar o peso do mundo em movimento. Quem está disposto a empurrar o Fenemê do profano?
E lá se foram todos, de avental e luvas, empurrando o caminhão pela rua deserta. O caminhoneiro aliviado, agradeceu:
- Nunca pensei que a maçonaria fosse tão prática.
O venerável mestre respondeu, ofegante:
- Pois é, meu senhor, Aqui a gente não só ilumina, também dá tranco no caminhão.
E assim, naquela noite, a loja maçônica descobriu que o maior segredo da fraternidade não estava nos rituais, mas na força coletiva para empurrar um caminhão carregado de abacaxis.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)