A VACA PROFANA E A CAMISA VOLTA AO MUNDO
Lá pelos anos de 1965, Juazeiro do Norte fervia com a moda da famosa camisa "volta ao mundo". Eu, menino insistente, não dava sossego a Dona Quininha até que, enfim, ela foi à Casa Rosada, na Rua São Pedro, comprou o tecido da moda e pediu à Dona Maria Gavião para confeccionar a tão falada peça e ainda mais chique: de mangas compridas.
Quando provei aquela linda camisa amarela, Expedito logo advertiu: "Não esqueça, essa camisa é só para usar aos domingos, para ir à missa, ainda nem paguei a costureira". Obedeci, mas dentro de mim ardia a vontade de exibir aquele tesouro para os companheiros Bolacha, Deda, Fumaça e Biquinho, lá no campinho de jogo.
No domingo seguinte, saí para missa já prevenido: calção por baixo da calça, porque depois da bênção vinha o jogo. No campo improvisado lá no Cícero Touro, as traves eram feitas com as roupas da molecada, depois dos elogios e de causar inveja, a badalada camisa foi escondida sob as roupas como quem se guarda uma relíquia.
O jogo seguia animado, eu feliz da vida, um pé na bola e o olho na camisa. Até que, num instante de distração, levanto a cabeça e vejo a cena que até hoje me causa arrepios: a vaca que veio não se sabe de onde, tranquila, mastigando com aquele ar de deboche minha preciosa amarela.
Pensei em meu pai Expedito, e no sermão que viria e parti para cima da vaca. Mas era tarde demais. A megera, com ar de malícia, terminou de engolir a camisa e, como se fosse parte da brincadeira, cuspiu todos os botões em minha direção, como se me dissesse: "perdeu Bené". Foi o único troféu que restou daquela moda tão badalada.
Desde então, aprendi que certas vaidades não resistem ao apetite da vida. E que, em Juazeiro, até a vaca sabia reconhecer o gosto da moda. Quanto à explicação para convencer Expedito...bem, essa é uma outra história, talvez ainda mais difícil de engolir do que a própria vaca.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)