O BATISMO DA RUA
Lá pelos anos sessenta, chamar alguém pelo apelido era coisa comum. Chico Zambeta, Zé Doido, Zé Bico Fino, Antonio Zarolho, Pedro Anão, Zé Peba, Dedé Remendo, Cícero Burrinho, Zé Molhado, Capotinho, Damião Cabeção, Caveirinha, Nêgo Bolacha. Já Morreu, Tio Patinhas, Cícero Bananeira, Peroba, Doutor Cacareco, Orelhão, Cebolinha, Sapatinho, Gaguinho, João Dedinho e Bodinho. E ninguém se ofendia. O apelido era quase uma marca registrada, um jeito de identificar a pessoa na comunidade. Quando o sujeito se importava, o apelido grudava para sempre, e assim a vida seguia, leve, sem maiores complicações.
Eu mesmo convivi com figuras inesquecíveis: Fumaça, que parecia não largar o cigarro de fumo brabo; Diabo Loiro, de temperamento forte e cabelo fogoió; Zé Quenga, que fazia rir só de aparecer; João Bufinha, dono de uma risada estrondosa. E tinha também o "Cú de Óleo", que ganhou esse apelido porque trabalhava em uma oficina mecânica e vivia coberto de graxa. Para nós, era apenas uma forma de chamar, nunca uma ofensa.
Naquele tempo, os apelidos eram parte da vida social, quase um código de pertencimento. Eles carregavam histórias, lembranças, e até certo afeto. Hoje, qualquer desses nomes seria considerado pejorativo, discriminatório. Vivemos em tempos de cuidado com as palavras, de vigilância sobre o que se diz. uma espécie de auto censura. As vezes me pergunto: será que perdemos a espontaneidade?
O mundo mudou. O que antes era visto como brincadeira inocente, hoje é interpretado como falta de respeito. Talvez seja sinal de amadurecimento coletivo, talvez seja apenas excesso de zelo. O fato é que a linguagem acompanha a sociedade, e os apelidos que marcaram minha juventude ficaram guardados na memória, como relíquias de um tempo que rir de si mesmo era mais fácil.
E eu sigo pensando: aonde vamos parar com esse papo de politicamente correto? Será que um dia ainda poderemos rir dos apelidos sem culpa, como fazíamos naquela época?
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)