SEM MAIS HISTÓRIAS PARA CONTAR
Nos anos 70, quando voltava para passear no meu Ceará, eu era uma espécie de Netflix ambulante, bastava desembarcar na terrinha com a mala cheia de histórias de São Paulo para lotar as calçadas de curiosos, o público rural, ávido por novidades, se reunia como plateia de auditório. E eu, sem pudor, exagerava: falava do frio paulista como se fosse o Polo Sul, e jurava que via pinguins atravessando a esquina da Avenida São João com Avenida Ipiranga. Tudo mentira, claro, mas mentira nutritiva: rendia doce de batata, cafezinhos, broas de milho que derretiam na boca, e até uma rede improvisada; era comum tirar uns cochilos depois do almoço na casa do anfitrião.
Quarenta e tantos anos depois, retorno ao palco. Mas o espetáculo acabou. Os matutos, outrora fiéis ouvintes, agora estão todos conectados ao tal do WhatsApp, com direito a grupos de famílias, fake news e figurinhas animadas. A TV a cabo substituiu as calçadas, e o contador de causos, outrora rei das calçadas, hoje não passa de um figurante diante da telas luminosas.
O choque foi grande: os poucos que me deram atenção sabiam mais de São Paulo e Rio do que os próprios moradores. Eu, que antes inventava pinguins para ganhar café, hoje não consigo sequer um copo d'água. A concorrência é desleal: como competir com o celular, esse novo contador de histórias que não cobra merenda nem pede uma rede emprestada?
O moral da crônica é dura, mas inevitável, o contador de causos foi aposentado sem direito a aviso prévio. E se antes eu reinava com minhas invenções, hoje sou apenas mais um espectador, derrotado pela tecnologia. Os pinguins da São João com a Ipiranga perderam a concorrência para os celulares.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)