TERNOS EM EXÍLIO
Os ternos repousam no guarda-roupa como soldados aposentados. Três deles foram comprados a prestação, cada parcela um tijolo erguido na construção da boa aparência que o trabalho exigia. O quarto terno, mais ousado, foi escolhido para marcar presença nas reuniões sociais, onde o tecido falava antes da boca.
Mas veio a pandemia. Veio o silêncio nas ruas, seguido pelo barulho das calçadas cheias de gente sem rumo, sem emprego, sem teto. Homens e mulheres que perderam não apenas o trabalho, mas também o direito ao disfarce da dignidade. E, eu, ao vestir um daqueles ternos, sentia o peso de um disfarce que já não cabia. O tecido, antes símbolo do respeito, tornava-se, para mim, a marca da vergonha.
Não era demagogia, não era discurso barato. Era apenas o desconforto de atravessar a Praça da Sé com o corpo engomado enquanto tantos outros atravessavam a vida com a roupa rasgada. O contraste feria mais do que qualquer costura malfeita.
Então, aposentei os ternos. Eles ficaram pendurados, imóveis, como testemunhas mudas de um tempo em que aparência valia mais que essência. Hoje, quando passo pelas ruas do centro da cidade, prefiro o tecido simples, o que não grita status, o que não me separa dos moradores de rua.
A aparência não está na roupa, mas no olhar. E se os ternos se tornaram relíquias, é porque aprendi que vestir-se bem não é alinhar a gravata, mas alinhar a minha consciência com a realidade que me cerca.
Esta é uma posição minha, pessoal, bem distante da intenção de imitar São Francisco de Assis para impressionar gregos e troianos ou julgar quem veste seus ternos impecáveis. Cada um é cada um... Eu me sinto bem com a minha calça jeans e o meu bonezinho. E ponto final.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)