A GUERRA QUE O CEARÁ EVITOU
Dois cearenses, daqueles otimistas até quando falta água por três dias na torneira, estavam proseando na calçada, debaixo do sol que só o sertão cearense sabe dar. Entre uma piada e outra, começaram a falar de um tal galego azedo, o Trump.
- Que cabra besta aquele galego, macho! - dizia um, abanando o chapéu de palha surrado.
- Filho de uma égua, não tem juízo não! - completava o outro, rindo com os dentes todos à mostra.
A conversa foi esquentando mais que panela de barro no fogo cozinhando mocotó. Até que um deles, com aquele brilho de ideia maluca nos olhos, soltou:
- E se a gente declarasse guerra ao país daquele galego filho de uma égua?
- E o outro, sem pestanejar, respondeu:
- Eita macho, sabe que não é uma má ideia não? A gente ganha fácil, tranquilo como quem toma banho de açude.
Mas logo veio a preocupação prática, porque cearense pode ser doido, mas não é besta não, pense num sujeito organizado!
- O problema maior, macho, é que depois da vitória ia ter que trazer aquele povo todo pra cá. E aí, onde vamos botar tanta gente? No Ceará não ia caber não, nem se empurrasse alguns para a Ibiapaba e outros para a Chapada do Araripe.
Os dois ficaram calados por um instante, imaginando Fortaleza com engarrafamento de americanos na Beira-Mar, gringo tentando comer baião de dois com Coca-Cola, turista perdido perguntado onde fica a estátua do Padre Cícero querendo ir para lá rezar em inglês e confundir as rezas dos romeiros.
No fim, desistiram da ideia e caíram na risada:
- Melhor deixar quieto, macho. Guerra dá trabalho demais. Vamos meter o cacete só na conversa mesmo, que sai mais barato, não mata gente e ainda rende história pra contar!
E assim, entre piadas e exageros, os dois otimistas seguiram proseando, certos de que o Ceará já tinha sol, humor, e coragem suficiente pra enfrentar qualquer galego azedo, sem precisar arrumar espaço pra mais ninguém.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)