QUANDO A HONRA CABIA NUM RISCO
Menino lá no Quadro de São Luiz, em Juazeiro do Norte, não precisava de brinquedo caro, não. O chão de terra batida era tabuleiro de guerra, palco de valentia e prova de quem era cabra macho de verdade. Bastava dois riscos tortos, traçados com o dedão do pé no pó vermelho, e pronto: tava feito o desafio.
- Esse risco é a mãe de Gilson!
- Pois esse aqui é a mãe de Zé Molhado!
A molecada se ajeitava em roda, cada um com o olho arregalado, esperando o primeiro besta de peito estufado que tivesse coragem de apagar a mãe do outro. E quando apagava, vixe Maria, era como se tivesse mexido com a honra da família. O pau quebrava sem dó nem piedade.
Os dois se agarravam, rolando pelo chão, levantando poeira que cobria até o sol. Era chute, era murro, cabeçada, era grito de "segura, cabra!" e ninguém apartava não, porque briga de menino era espetáculo garantido. Só se metia quando aparecia a mãe de um deles, com o chicote na mão, e aí não tinha valente que aguentasse. O couro comia, e a valentia virava choro engasgado.
Mas no outro dia, como se nada tivesse acontecido, lá estava de novo, rindo, inventando moda, prontos pra riscar o chão outra vez. Porque ser menino no interior era isso: viver de desafio besta, apanhar da mãe ou do pai, e ainda achar graça.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)