CEMITÉRIO DOS CINEMAS
Entro no cemitério da memória.
As lápides brilham sob a lua,
não com nomes de mortos,
mas de cinemas que frequentei.
Barbalha-CE - Cine Odeon,
meu primeiro cinema,
hoje, um obelisco de tijolos
guarda minha mais doce lembrança.
Juazeiro do Norte-CE - Cines Eldorado e Capitólio,
duas colunas quebradas,
cartazes rasgados como véus,
o vento sopra trailers que nunca virão.
Fortaleza- CE - Cine Moderno e Cine Diogo.
guardando ecos de antigos aplausos,
suas telas brilham nos olhos da saudade,
são lápides de luz, eternas na sombra da cidade.
Recife-PE - Cine Art Palácio, Cine Trianon,
são mausoléus dourados,
como vitrais que ainda refletem
fantasmas de plateias.
Porto Alegre- RS - Cine Imperial,
Cine Vitória, Cine Guarani,
três túmulos alinhados,
como soldados caídos,
cada poltrona uma ossada,
cada tela um epitáfio.
Brasília- DF - Cine Karin, Cine Cultura,
lápides brancas,
erguidas no centro do poder,
onde a cultura foi enterrada,
sob templos e vitrines.
São Paulo- SP - Cine Marabá, Cine Paissandu.
catedrais de imagens,
agora igrejas do consumo,
onde o povo ainda se reúne,
mas não para sonhar.
Eu caminho entre túmulos e luz,
cada cidade um corredor,
cada cinema uma cicatriz.
Saudade é o filme que não passa,
tristeza é o letreiro apagado.
E no cemitério dos cinemas,
eu volto ao tempo,
acendo velas de memória,
e converso com os fantasmas
da sétima arte.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)