O SERMÃO DA MONTANHA NO MORRO CARIOCA
Jesus subiu ao alto do morro. Não havia oliveiras nem colinas serenas, mas vielas estreitas, caixas de som estourando graves e homens do tráfico armados vigiando cada esquina. O povo o seguia, não em busca de milagres, mas tentando escapar do medo que rondava como sombra.
Ele abriu a boca e disse: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." Mas a mensagem se perdeu no estampido dos fuzis. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça." E a justiça, ali, era cobrada em dinheiro vivo pelas milícias que vendiam ingresso para a fé.
Cada palavra competia com o som dos bailes funks, cada parábola disputava espaço com o eco das rajadas das metralhadoras. O sermão que falava de mansidão era cercado de barricadas, e os fiéis se perguntavam se sobreviver até o fim da pregação já não seria milagre suficiente.
Jesus olhava para os rostos cansados, marcados pelo medo. Sua mensagem era clara: a paz não pode ser mercadoria, a vida não pode ser refém. Mas o morro denunciava, em cada esquina, a ausência de segurança e a presença de um poder paralelo que dita regras com a ponta do fuzil.
No fim, não houve multiplicação de pães, mas multiplicações de silêncios. O povo desceu em silêncio pesado, levando consigo a lembrança de que até o Filho do Homem, no Rio de Janeiro, teria que disputar espaço com o barulho da violência.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)