Benedito Morais de Carvalho(Benê)
NÃO SOU POETA, SOU UM ARRUMADOR DE PALAVRAS.
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                      O SERMÃO DA MONTANHA NO MORRO CARIOCA

 

     Jesus subiu ao alto do morro. Não havia oliveiras nem colinas serenas, mas vielas estreitas, caixas de som estourando graves e homens do tráfico armados vigiando cada esquina. O povo o seguia, não em busca de milagres, mas tentando escapar do medo que rondava como sombra.

     Ele abriu a boca e disse: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." Mas a mensagem se perdeu no estampido dos fuzis. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça." E a justiça, ali, era cobrada em dinheiro vivo pelas milícias que vendiam ingresso para a fé.

     Cada palavra competia com o som dos bailes funks, cada parábola disputava espaço com o eco das rajadas das metralhadoras. O sermão que falava de mansidão era cercado de barricadas, e os fiéis se perguntavam se sobreviver até o fim da pregação já não seria milagre suficiente.

     Jesus olhava para os rostos cansados, marcados pelo medo. Sua mensagem era clara: a paz não pode ser mercadoria, a vida não pode ser refém. Mas o morro denunciava, em cada esquina, a ausência de segurança e a presença de um poder paralelo que dita regras com a ponta do fuzil.

     No fim, não houve multiplicação de pães, mas multiplicações de silêncios. O povo desceu em silêncio pesado, levando consigo a lembrança de que até o Filho do Homem, no Rio de Janeiro, teria que disputar espaço com o barulho da violência.

 

Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)

      

Benedito Morais de Carvalho (Benê)
Enviado por Benedito Morais de Carvalho (Benê) em 18/01/2026
Alterado em 18/01/2026
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