A PRAÇA DA SÉ, ONTEM E HOJE
Ontem, não tão distante no tempo, a Praça da Sé era um coração pulsante. Os engraxates, com suas elegantes cadeiras sombreadas com seus guarda-sóis e latas de graxa, davam brilho não apenas aos sapatos, mas também ao cotidiano apressado dos paulistanos. As bancas de jornal, alinhadas como sentinelas da informação, ofereciam manchetes que se abriam como janelas para mundo. O burburinho era constante: trabalhadores, estudantes, turistas todos cruzando sob o olhar imponente da Catedral da Sé. O Marco Zero, discreto mas simbólico, era testemunha silenciosa de uma cidade que crescia sem parar.
Hoje, a mesma praça parece carregar um silêncio diferente. Os engraxates desapareceram, como se levados pelo vento da modernidade que trocou o couro polido pelo tênis esportivo. As bancas de jornal, antes abarrotadas de revistas e periódicos, foram engolidas pela tela fria dos celulares. Restaram as palmeiras, altas e imóveis, observando prédios que perderam o brilho e ganharam rachaduras. No lugar do burburinho, ecoam vozes de pregadores que oferecem consolo aos desvalidos, como se a praça tivesse se transformado em um altar improvisado da sobrevivência.
A Praça da Sé de ontem era o retrato da cidade que se afirmava, cheia de movimento e esperança, embalava-se pelos gritos vindos do palanque das Diretas Já.
A Praça da Sé de hoje é o espelho de uma metrópole cansada, onde o tempo deixou marcas mais profundas que as placas de bronze do Marco Zero.
E, no entanto, há uma continuidade: a praça segue sendo palco. Ontem, palco da vida urbana vibrante; hoje, palco da resistência e da memória. O Marco Zero continua ali, lembrando que tudo começa naquele ponto, inclusive a história de uma cidade que insiste em se reinventar, mesmo quando parece desbotada.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)