SOZINHOS NA MULTIDÃO
Acordamos antes mesmo de acordar. O corpo ainda repousa, mas a mente já desperta no clarão da tela. O primeiro gesto não é o abraço, nem o café quente, mas o deslizar do dedo que abre portais infinitos.
Vivemos em praças invisíveis, onde todos falam ao mesmo tempo e quase ninguém escuta. As vozes se multiplicam em notificações, curtidas, mensagens instantâneas. O silêncio, esse velho companheiro da reflexão, tornou-se artigo raro, quase um luxo.
Estamos juntos em grupos, redes, páginas, mas sozinhos na sala. A hiperconexão nos deu a ilusão de proximidade: atravessamos oceanos em segundos, mas tropeçamos na distância de um olhar. O mundo inteiro cabe no bolso, e ainda assim falta espaço para uma conversa sem pressa.
Há beleza nesse tempo, é verdade. Amores nascem em imagens, amizades florescem em telas, causas se espalham como fogo em palha seca. Mas há também o risco de nos tornarmos personagens de nós mesmos, sempre editados, sempre filtrados, sempre prontos para o aplauso.
No fundo, o que buscamos não é conexão, mas o encontro. Não é o sinal do Wi-Fi, mas sinal humano, aquele que se traduz em risos compartilhados, em lágrimas divididas, em histórias contadas sem pressa.
Talvez um dia, quando olharem para trás, digam que vivemos na era da hiperconexão. E talvez acrescentem: foi o tempo em que aprendemos que estar conectado não é o mesmo que estar presente.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)