O FAVOR QUE NUNCA EXISTIU
No palanque improvisado, um candidato ergue a voz: "Foi graças a mim que vocês receberam o Bolsa Família. Não esqueçam disso quando forem votar."
O povo escuta. Alguns aplaudem, outros se entreolham, alguns agradecem, outros se calam. Mas paira no ar um silêncio mais profundo: o silêncio da verdade esquecida.
Socorrer os pobres não é gesto de bondade, não é caridade de gabinete. É dever do Estado, obrigação constitucional, pacto social. Quando um político pede gratidão por aquilo que deveria ser garantido, ele não oferece ajuda, ele cobra por um direito que nunca lhe pertenceu.
A gratidão, nesse caso, é uma moeda falsa. O verdadeiro reconhecimento deve ser dirigido à sociedade que, através de impostos e da Constituição, decidiu que ninguém deveria passar fome. O Bolsa Família não é presente de um político, mas conquista de um povo.
E assim, cada vez que alguém tenta transformar política pública em favor pessoal, é como se apagasse a cidadania e reinstalasse o velho coronelismo: o poder como esmola, o voto como dívida.
Mas o povo não deve nada. O povo exige. Porque direitos não se agradecem, se exercem.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)