BRASIL: O PAÍS DO AMANHÃ QUE NUNCA CHEGA
Nasci em 1952, e já cheguei atrasado: não havia moradia, não havia médico, não havia escola e nem comida. O Brasil parecia estar sempre no século anterior. Em 1968, enquanto o mundo queimava guitarras e ditaduras, eu começava a entender que política era um teatro onde o povo só entra como figurante.
De lá pra cá, 2026, o roteiro não mudou. Governos de esquerda, governos de direita, generais de farda, civis de terno, todos prometendo a mesma coisa: emprego, transporte, moradia, saúde, segurança. E o povo, como eu, esperando o milagre que nunca vem.
Passei por pacotes econômicos que prometiam estabilizar o país e só estabilizaram a paciência do povo. Vi moedas nascerem e morrerem: cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e real... cada troca anunciada como se fosse a reinvenção da roda, mas no fim era só mais um carimbo no bolso vazio.
E hoje, em pleno século XXI, uma mulher leva de seis meses a um ano para conseguir uma mamografia pelo SUS. O câncer não espera, mas o sistema manda aguardar na fila. É como se a saúde fosse um sorteio: quem tiver paciência, talvez sobreviva.
Talvez o problema seja eu, um pé frio que atrai desgraça nacional. Mas olhando bem, não é azar: é método. O país parece ter uma vocação para improviso, para o remendo, para o "amanhã melhora". O amanhã nunca chega, mas o discurso é eterno.
Sou sobrevivente de um Brasil que não aprende. Um país que muda de governo como quem troca de camisa, mas mantém o mesmo cheiro de mofo. E eu sigo aqui, um arremedo de cronista involuntário, rindo para não chorar, porque se não for na sátira, a tragédia nos engole.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)