MARIA LUA E JOSÉ SOL
No inicio da década de setenta,
na Vila do Sossego,
Maria Lua passou a cavalo,
branca, alta, lábios carnudos,
trajando uma blusa branca
e uma calça cáqui de brim.
José Sol estava na pracinha,
calça USTOP, boca de sino,
uma camisa xadrez,
e uma pulseira de alumínio,
adornos dos jovens pobres,
na moda da Jovem Guarda.
Os olhares se encontraram
ela não soube o que viu nele,
ele viu de tudo nela.
Foi amor à primeira vista,
sem ensaio, sem roteiro.
Mãos se encontraram,
afagos desenharam ternura,
beijos rimaram paixão,
criando amor verdadeiro.
Sonharam filhos,
sonharam eternidade,
sonharam o impossível,
sem consultar o destino.
José Sol rumou aos sonhos,
partiu para São Paulo.
Levava esperança na mala,
e um retrato do Padre Cícero.
Trabalhar, ganhar dinheiro,
se estabilizar por inteiro,
eram os planos do retirante,
para depois trazer Maria.
Maria Lua ficou na Paraíba,
guardando lembranças,
trocando correspondências,
esperando o retorno de José,
esperando, ansiosa, o destino.
E o tempo,
esse mestre invisível,
esticava os dias,
encurtava as férias,
testava o amor dos dois.
Como Isabeau e Navarre,
no filme O Feitiço de Áquila,
o casal foi condenado,
a viver em separado.
O medo, o desejo e a dor,
são irmãos inseparáveis,
não podiam viver o amor.
De dia, Maria Lua virava falcão,
voando alto, livre, mas distante.
A noite, José Sol virava lobo,
uivando de saudade,
guardando silêncio.
E assim viveram um amor impossível,
sem se encontrarem, sem se tocarem,
para os restos de suas vidas.
Mesmo seguindo outros caminhos,
ficaram juntos emocionalmente.
Ele, o Sol brilhando no dia,
Ela, a Lua brilhando na noite.
Criaram novas famílias,
mas nunca apagaram da alma,
o amor que os uniu.
O amor que jamais se consumou,
mas para sempre existiu.
guardado em silêncios,
em olhares que não se cruzaram,
em palavras que ficaram por dizer.
Foi chama sem incêndio,
foi promessa sem destino,
foi eternidade sem começo,
mas ainda sim,
foi amor.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)