O TEATRO DO FUTEBOL
Antigamente, o futebol era uma arte de pés. O drible era pincelada, o toque era poesia, e cada gol parecia uma assinatura de mestre, um orgasmo. Hoje, porém, o espetáculo mudou de palco: saiu do gramado e foi parar no tablado. O jogador moderno não é mais craque, é ator.
O chute certeiro deu lugar ao ensaio dramático. Cada contato, lá vem o protagonista: cai, rola, grita e contorce-se como se estivesse sido atingindo por um raio. O estádio inteiro prende a respiração, o juiz corre aflito, os companheiros fazem cara de velório. E então, como um milagre digno de novela das oito, o ator levanta-se, ajeita o uniforme, puxa os meiões e sai andando, saudável como quem acabou de sair de uma fisioterapia divina.
O drible, coitado, virou peça de museu. Quem ousa fintar hoje é visto como antiquado, um romântico fora de época. O recurso da vez é a simulação: o teatro da queda, a ópera da dor fingida, o balé da interrupção. O cronômetro para, a partida é interrompida, o torcedor suspira, e o espetáculo segue, não mais com a bola, mas com dramaturgia.
Se antes tínhamos Garrincha, o anjo das pernas tortas, Zico, o Galinho de Quintino, agora temos o santo das quedas milagrosas. O futebol virou palco, e os gramados, grandes teatros. O ingresso não compra mais 90 minutos de jogo, mas sim um espetáculo de tragédias gregas e comédias pastelão.
E no fim, quem ganha não é o time, mas o ator que convenceu o árbitro. O craque não é quem faz gol, mas quem cai com muito estilo. O futebol, enfim, reinventou-se: deixou de ser esporte e virou novela.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)