CALENDÁRIO DA LAMA
Barracos escorrem morro abaixo,
como se fossem folhas molhadas,
gente soterrada, desabrigada,
e o barro engole nomes sem memória.
Políticos chegam com trombetas,
moedas pingam como esmolas oficiais,
promessas erguem-se sobre cadáveres,
a imprensa vende tragédia em horário nobre.
Poetas rimam a lama,
versos escorrem junto às enxurradas,
palavras lavadas pela repetição,
esperando o próximo fevereiro.
E o ciclo recomeça,
o mesmo solo inabitável ocupado,
chuva, morte, discurso, audiência,
um país que se acostuma ao desespero,
como se fosse estação do calendário.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)