ASSOMBRAÇÕES DO CEARÁ
Nas noites quentes do sertão, quando o vento sopra entre as serras e o silêncio pesa sobre as estradas, o Ceará revela seu lado mais sombrio. É nesse instante que as velhas histórias ganham corpo e caminham entre os vivos.
Dizem que, no Quixadá, a Noiva de Pedra ainda chora seu destino, no dia do seu casamento, o noivo não apareceu, tomada pela vergonha e pela tristeza, a noiva correu até os monólitos e nunca mais foi vista. O povo acreditou que ela havia sido transformada em pedra, eternizada na rocha que lembra a figura com véu e que, em noites de lua cheia é possível ouvir o choro e os lamentos da noiva ecoando entre as pedras. Não muito longe, nas águas do Açude do Cedro, o Monstro se agita, guardando mistérios que nenhum pescador ousa desafiar.
Em Canindé quando a procissão se dispersa, surge o Padre Fantasma, caminhando em silêncio, com o olhar perdido entre o mundo dos vivos e dos mortos. Já em Fortaleza, o estrondo de cascos flamejantes anuncia a Carruagem de Fogo, que cruza as ruas antigas deixando atrás de si apenas medo e labaredas de fogo imaginárias.
No Cariri, a Mulher de Branco aparece nas estradas desertas ou perto de cemitérios, carregando uma trouxa de roupas pedindo ajuda para que alguém coloque o fardo em sua cabeça. Mas, segundo a tradição, quem ajuda acaba sendo amaldiçoado: ao levantar o embrulho, descobre que é pesado como uma pedra, e ao olhar para a mulher , vê que ela não tem rosto. E na cachoeira de Missão Velha, espíritos de índios guardam segredos que a água nunca revela,
Que em noites de lua cheia, quando a madrugada se aprofunda, é possível ouvir o grunhido de uma enorme Porca dos Olhos de Fogo, que surge, trazendo medo e desespero, ela é uma mulher amaldiçoada condenada a vagar eternamente por seus pecados.
Assim, o Ceará se veste de mistério. Entre pedras, águas e ventos, suas assombrações não são apenas lendas: são memórias vivas, guardiãs de um povo que aprendeu a conviver com o medo e a beleza do invisível.
Pesquisa de Benedito Morais de Carvalho (Benê)