SER O QUE É
No ônibus, a moça ajeita o cabelo diante do reflexo da janela. Parece ensaiar um personagem que não é dela. O rapaz ao lado, com fones de ouvido, balança a cabeça como se estivesse em outro mundo. E eu penso: quantos de nós passamos o dia tentando ser o que não somos?
A vida é difícil demais para que a gente invente máscaras. Ser o que é deveria ser o gesto mais simples, mas virou quase um ato de coragem. Não precisa de aplauso, não precisa de plateia. Basta respirar sem disfarce.
O rio não finge ser mar. A pedra não finge ser flor. Por que nós insistimos em fingir? Talvez porque nos ensinaram que agradar é mais importante do que existir. Mas quem se permite ser ele mesmo descobre que não há esforço maior do que tentar ser outro.
Ser é liberdade nua. É palavra sem maquiagem. É corpo sem disfarce. E nesse despojamento, o mundo se abre, não para quem imita, mas para quem respira a própria verdade. É estupidamente fácil a gente ser o que é.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)