PRATELEIRAS DA ESTUPIDEZ
O mundo virou um grande supermercado. Gente empilhada em categorias, etiquetada como se fosse lata de sardinha ou pacote de arroz. Preto, branco, alto, baixo, pobre, rico, feio, bonito, cada um na sua prateleira, com código de barras invisível, pronto para ser escaneado pelo olhar alheio. O ridículo é que ninguém percebe que, no fundo, somos todos produtos vencidos pela mesma condição humana.
O homem, esse animal que se gaba de ter inventado a filosofia e a internet, ainda não aprendeu a lidar com a complexidade do outro. Prefere a preguiça das distinções: mais fácil medir centímetros de altura do que profundidade de caráter; mais simples contar zeros na conta do vizinho do que somar virtudes. É a matemática burra, mas confortável.
E assim seguimos, cada um defendendo sua prateleira como se fosse território sagrado. O rico olha o pobre como se fosse mercadoria de segunda linha. O branco olha o preto como se fosse embalagem alternativa, o preto vê o branco como ameaça. O alto olha o baixo como se fosse versão compacta. Todos se achando especiais, todos esquecendo que, no fim, o carrinho da vida passa e leva tudo para o mesmo caixa.
A ironia é cruel: quando chega a hora de pagar, não há distinção que valha. A morte não lê etiquetas.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)