O OVO DE OURO
Na véspera de Páscoa, entre prateleiras reluzentes e preços indecentes, descobri que o ovo de chocolate virou artigo de luxo. Não era doce, era investimento: parecia que dentro da casca vinha um contrato de ações, não brinquedinhos.
Fugi da armadilha e agarrei uma barra de chocolate Hershey's 60% cacau, meu ato de resistência contra o capitalismo açucarado. Cheguei em casa radiante, pronto para saborear minha vitória. Mas antes que a barra de chocolate fosse aberta, ouvi uma sentença do Ministério da Saúde Doméstico: Olha o colesterol! Olha a pressão alta!
Minha barra de chocolate foi confiscada em nome da longevidade. Restou-me o ovo... de galinha. Cozido, simples, democrático, sem embalagem dourada nem boleto bancário escondido.
E foi ali que percebi: a Páscoa moderna não celebra o coelho nem o chocolate, mas sim a economia doméstica e a vigilância conjugal. O verdadeiro milagre é conseguir comer alguma coisa sem falir e sem ser repreendido.
No fim, entre o luxo inacessível e a dieta obrigatória, descobri que o ovo de galinha é o único que cabe no bolso e na pressão arterial. E convenhamos: pelo menos não vem com um boleto dentro.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)