A GALINHA QUE QUERIA SER PATA
No quintal de Dona Zulmira, reinava uma galinha cheia de pretensões. Enquanto suas colegas se ocupavam em ciscar o terreiro, procurar minhocas e botar ovos, ela sonhava com horizonte aquáticos. Não queria ser ser cisne, nem ganso, flamingo. Sua ambição era modesta e, ao mesmo tempo, mais ousada: queria ser uma pata. Achava elegante aquele andar bamboleante e, sobretudo, o espetáculo das patas no lago, deslizando como artistas de circo aquático.
Um dia, tomada por coragem e vaidade, resolveu provar ao mundo sua nova identidade. Caminhou até o lago com passos firmes, peito estufado e aquele ar de quem acredita que basta se mostrar para convencer.
Entrou na água como quem desfila na passarela. Mas logo descobriu que o glamour das patas não vinha de graça. As penas se encharcaram, o corpo afundava, e o cacarejo virou gargarejo. A galinha se debatia como guarda-chuva em tempestade, enquanto as rãs riam em coro e os peixes soltavam bolhas de deboche. Os patos, por sua vez, ficaram extasiados: nunca tinha visto uma galinha transformar o lago em palco de comédia.
Quase virou estatística aquática, mas conseguiu se arrastar para fora, pingando e desmoralizada, Ainda assim, sacudiu as penas e declarou com orgulho: "Não sou pata... mas sou a primeira galinha a dar espetáculo no lago!"
E assim nasceu a lenda da galinha que queria ser pata: uma tragédia que virou comédia, lembrando que às vezes o ridículo é só a forma mais divertida de se destacar.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)