O ADMIRÁVEL FIM DO EMPREGO
Eis que finalmente chegou o dia tão aguardado: o fim do expediente. Não se trata de reduzir a jornada de quatro dias, nem de discutir se o trabalhador merece folga no domingo. Não, isso é coisa do passado. Agora, ninguém mais trabalha. O comércio fechou, a indústria desligou as máquinas, e os escritórios se transformaram em museus do tédio corporativo.
No lugar dos trabalhadores, uma legião de robôs incansáveis e bem lubrificados faz tudo: serve café, entrega pacotes, frita pastel, corrige provas, dá aula de filosofia, desfila em parada militar sem errar o passo e até canta o Hino Nacional, sem errar a letra. O brasileiro, esse ser cansado e reclamão, foi aposentado para sua alegria.
E o que resta ao povo? Receber o auxílio governamental, claro. Uma mesada nacional, suficiente para comprar o que os robôs produzem e consumir o que as máquinas recomendam. O antigo debate sobre carga horária virou piada: como reduzir o que já não existe?
No começo, todos vibraram. "Enfim, tempo livre", gritavam nas praças. Mas logo descobriram que o tempo livre é um patrão cruel: cobra criatividade, exige sentido, pede propósito. E aí começaram as filas, não nas fábricas, mas nos consultórios de psiquiatras-robôs, programados para distribuir pílulas de felicidade sintética.
Foi então que alguém, num lampejo de erudição, citou Aldous Huxley e seu Admirável Mundo Novo: "Não é o medo que nos domina, mas o prazer fácil e a ausência de dor." E todos perceberam que a utopia da folga eterna havia se transformado em uma distopia de tédio absoluto.
Sem esforço, sem conquista, a vida tornou-se uma eterna segunda-feira sem despertador. O brasileiro, outrora orgulhoso de sua obra, agora se vê reduzido a espectador de um espetáculo mecânico. O país do descanso eterno é, afinal, um país sem alma.
E talvez, no fundo, o trabalho fosse menos uma obrigação e mais uma desculpa para continuar sendo humano. Mas não se preocupe: se você sentir falta, basta pedir a um robô que simule sua antiga função. Ele fará melhor, mais rápido e sem reclamar do chefe. Admirável, não?
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)