Benedito Morais de Carvalho(Benê)
NÃO SOU POETA, SOU UM ARRUMADOR DE PALAVRAS.
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BRASIL QUE ANDEI

 

Vi caldo dividido em Fortaleza

um prato raso, duas colheres,

a fome repartida como esperança.

na acolhedora Praça do Ferreira.

 

Vi homens-sanduíches no centro de São Paulo.

placas pesadas, empregos leves,

o corpo virando anúncio,

a dignidade em letras garrafais.

 

Vi meninos de rua em Recife,

banho de chafariz, riso improvisado,

água pública virando brinquedo,

infância lavada na Praça da Independência.

 

Vi bêbados em Porto Alegre,

vomitando na Rua da Praia,

a cidade engolindo restos de gente,

o calçadão cheirando a derrota.

 

Vi crianças vendendo balas em Brasília,

no restaurante externo do Hotel Nacional,

o luxo servindo em pratos fundos,

a miséria servindo mãos abertas.

 

Vi trombadinhas em Salvador,

correndo pela Baixa do Sapateiro,

desespero em pernas magras,

a policia correndo atrás.

 

Vi gente tremendo de malária em Belém,

jogada num canto da rodoviária,

febre no atacado como o destino,

solidão como cobertor.

 

Vi Belo Horizonte tomada pela água,

rodoviária virando rio,

crianças surfando nos ônibus,

equilibrando-se no caos,

brincando com a tragédia.

 

Vi filas de desempregados,

e cada estado que atravessei,

rostos cansados, passos lentos,

espera que nunca termina.

 

E não me digam que não conheço o Brasil:

eu o vi em pedaços,

em calçadas, viadutos, praças, rodoviárias,

em corpos que carregam o peso da história,

em vozes que pedem, correm, tremem,

em olhos que ainda insistem em ver.

 

Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)

 

 

 

 

 

 

Benedito Morais de Carvalho (Benê)
Enviado por Benedito Morais de Carvalho (Benê) em 01/05/2026
Alterado em 01/05/2026
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