O ADEUS À ROÇA FAMILIAR
No sertão nordestino, onde o sol sempre foi companheiro e inimigo, a roça familiar já não canta como antes. O milho, que outrora erguia espigas douradas ao vento, hoje é lembrança guardada nas histórias dos mais velhos. O feijão, que sustentava famílias inteiras, perdeu espaço para pacotes comprados pela internet, entregue na porta por transportadoras.
Os jovens, que antes aprendiam a plantar com o pai e a colher com a mãe, migraram para as cidades em busca de estudo, trabalho e promessa de futuro. A enxada ficou encostada atrás da porta, enferrujando, enquanto o celular se tornou a nova ferramenta de sobrevivência. O auxílio governamental, que chega em dinheiro, substituiu o suor da terra. E com a internet, o matuto descobriu que pode vender sua galinha pelo Mercado Livre e comprar sua comida pela Amazon. Há quem peça até almoço pelo "iFood", sem saber mais o gosto de uma espiga de milho assada na brasa.
A roça, que era escola, sustento e tradição, vai se apagando como fogueira que ardeu a noite inteira e amanheceu em cinzas. O silêncio dos roçados é profundo: não se ouve mais o cantar do carro de boi, nem o barulho da palha seca sendo quebrada. O Nordeste, que sempre foi celeiro de resistência, agora assiste ao fim de uma era.
E assim, a roça familiar se despede, não com alarde, mas com melancolia de quem cumpriu seu papel. Fica a saudade de um tempo em que o milho e o feijão eram mais que alimentos, eram identidade, eram vida. Hoje, restam memórias, histórias contadas à sombra do pé de pau, lembranças de um Nordeste que plantava sonhos na terra seca e colhia esperança no coração.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)