SILÊNCIO DE VOZES
Há tempo em que a música popular brasileira (MPB) parecia nascer todos os dias. Cada esquina trazia um violão, cada rádio revelava um refrão novo, cada LP era uma promessa de descoberta. Hoje, no entanto, os palcos se repetem como calendários antigos: Alceu Valença ainda canta "Anunciação", Fagner insiste em "Borbulhas de Amor", Caetano e Gil revisitam os mesmos hinos tropicais, Chico Buarque ecoa "Apesar de Você", Djavan gira em torno de "Oceano", Martinho da Vila e Paulinho da Viola mantêm vivas as rodas de sambas, com os mesmos sambas, e Roberto Carlos segue fiel ao seu ritual anual de emoções. São canções eternas, mas também são ecos de um passado que parece não se renovar.
Não é que tenham perdido o talento, ao contrário, são mestres que moldaram a identidade de um país. Mas talvez tenham se tornado guardiões de si mesmos, prisioneiros da própria obra. O público pede o inédito e eles entregam o conhecido. O mercado exige nostalgia, e eles oferecem memória. O novo, quando aparece, é tímido, escondido em discos pouco divulgado ou em parcerias discretas. Zé Geraldo ainda escreve versos de estrada, mas quem os ouve? Djavan lança álbuns inéditos, mas quantos chegam às rádios? Até Milton Nascimento, antes de se despedir dos palcos, preferiu revisitar o que já era eterno,
Enquanto isso, a juventude cria em outras margens. Maria Gadú trouxe frescor com sua voz delicada, Anitta transformou o pop brasileiro em produto global, Ivete Sangalo segue como rainha das multidões, Ludmilla e Pablo Vittar reinventam a cena com ousadia, Marília Mendonça eternizou a sofrência, e nomes como Luan Santana e Gustavo Lima dominam o sertanejo moderno. Eles são os herdeiros de uma tradição que se recusa a morrer, mas que precisa se reinventar. Talvez o problema não esteja nos velhos mestres, mas em nós, ouvintes, que pedimos sempre o mesmo show, o mesmo refrão, a mesma lembrança. É mais fácil aplaudir o passado do que arriscar o futuro.
A música popular brasileira não deixou de ser fértil. Apenas mudou de terreno. Os grandes nomes que citamos, vivos e atuantes, continuam a nos oferecer beleza, mas já não se preocupam em ser novidades. E talvez seja essa a lição: a novidade agora mora em outros corpos, outras vozes, outras histórias. Cabe a nós abrir os ouvidos.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)