CRÔNICA DO RABISCO
Foi ouvindo as crônicas do meu mestre Dr. Geraldo Menezes Barbosa, pela Rádio Progresso de Juazeiro do Norte nos anos sessenta, que comecei a me encantar com esse jeito de transformar o cotidiano em literatura. Depois vieram Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, João Ubaldo e Mário Prata, cada um com sua pena afiada, cada um com sua maneira de dar voz ao mundo. Eu, aprendiz de cronista, quis imitá-los.
Mas o rabisco não se deixar domesticar. Ele escapa da linha, tropeça na vírgula, se perde no no ponto final. E assim, escrevo tentando acertar o tom há mais de 40 anos, mas o texto insiste em ser apenas esboço, sombra, arremedo.
E, no entanto, há beleza nesse fracasso. Porque cada tentativa é uma conversa com aqueles cronistas que me ensinaram a olhar o mundo como ironia, lirismo e humor. Se não acerto a crônica perfeita, acerto ao menos o gesto: o de continuar rabiscando, como quem insiste em conversar com o tempo.
No fim, talvez seja isso a crônica: um rabisco que se recusa a morrer.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)