O BARBEIRO TRÊMULO E O CEARENSE CORAJOSO
Zé Raimundo, um vendedor, havia acabado de pernoitar na cidadezinha do interior. Despertou com uma missão: sair para trabalhar bem apresentado. Adentrou na barbearia do seu Chico, o barbeiro trêmulo, célebre por fazer de cada navalha em uma roleta russa capilar.
Zé Raimundo sentou-se na cadeira, seu Chico tremia tanto que parecia estar conectado direto na tomada. Seu Chico prendeu a toalha sebenta ao pescoço do freguês, e Zé Raimundo, inquieto, já se sentia protagonista de um filme de ação: "Missão Impossível- A Barba Fatal".
- Seu Chico, o senhor não tem medo de cortar errado não? - perguntou, Zé Raimundo, já agoniado e com o suor escorrendo na testa.
- Errado? Eu não corto errado, eu faço barba artística! - respondeu o barbeiro, como se fosse Picasso em lâmina.
Cada deslizar da navalha era um suspense digno de novela mexicana. Zé Raimundo via sua vida passar em retrospecto: infância no sertão, jogando pedras em enxames para espantar as abelhas, o dia em que quase foi atropelado por um jegue desembestado atrás de uma jumenta. Tudo embalado pelo som da navalha trêmula, que parecia ensaiar o carnaval.
No fim, o resultado foi uma obra de arte abstrata: metade da cara lisinha, a outra metade lembrando mapa geográfico do Ceará. Mas Zé Raimundo não se deu por vencido. Olhou no espelho desgastado pelo tempo e disse:
- Se eu não fiquei bonito, pelo menos fiquei corajoso. Agora posso até pedir música no Fantástico.
- Seu Chico: o senhor já fez a barba aqui alguma vez?
- Zé Raimundo: Não, senhor. Essa cicatriz na minha testa foi de quando eu passei por baixo de uma cerca de arame farpado.
E saiu dali com a moral que enfrentou não um barbeiro, mas um terremoto em forma da gente. Porque coragem, no Ceará, não é matar a onça no mato. É confiar sua cara a um barbeiro trêmulo e ainda sair rindo.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)