Benedito Morais de Carvalho(Benê)
NÃO SOU POETA, SOU UM ARRUMADOR DE PALAVRAS.
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Contato
Textos

          O BARBEIRO TRÊMULO E O CEARENSE CORAJOSO

 

     Zé Raimundo, um vendedor, havia acabado de pernoitar na cidadezinha do interior. Despertou com uma missão: sair para trabalhar bem apresentado. Adentrou na barbearia do seu Chico, o barbeiro trêmulo, célebre por fazer de cada navalha em uma roleta russa capilar.

     Zé Raimundo sentou-se na cadeira, seu Chico tremia tanto que parecia estar conectado  direto na tomada. Seu Chico prendeu a toalha sebenta ao pescoço do freguês, e Zé Raimundo, inquieto, já se sentia protagonista de um filme de ação: "Missão Impossível- A  Barba Fatal".

     - Seu Chico, o senhor não tem medo de cortar errado não? - perguntou, Zé Raimundo, já agoniado e com o suor escorrendo na testa.

     - Errado? Eu não corto errado, eu faço barba artística! - respondeu o barbeiro, como se fosse Picasso em lâmina.

     Cada deslizar da navalha era um suspense digno de novela mexicana. Zé Raimundo via sua vida passar em retrospecto: infância no sertão, jogando pedras em enxames para espantar as abelhas, o dia em que quase foi atropelado por um jegue desembestado atrás de uma jumenta. Tudo embalado pelo som da navalha trêmula, que parecia ensaiar o carnaval.

     No fim, o resultado foi uma obra de arte abstrata: metade da cara lisinha, a outra metade lembrando mapa geográfico do Ceará. Mas Zé Raimundo não se deu por vencido. Olhou no espelho desgastado pelo tempo e disse:

     - Se eu não fiquei bonito, pelo menos fiquei corajoso. Agora posso até pedir música no Fantástico.

     - Seu Chico: o senhor já fez a barba aqui alguma vez?

     - Zé Raimundo:  Não, senhor.  Essa cicatriz na minha testa foi de quando eu passei por baixo de uma cerca de arame farpado.

     E saiu dali com a moral que enfrentou não um barbeiro, mas um terremoto em forma da gente. Porque coragem, no Ceará, não é matar a onça no mato. É confiar sua cara a um barbeiro trêmulo e ainda sair rindo.

 

Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)

 

     

Benedito Morais de Carvalho (Benê)
Enviado por Benedito Morais de Carvalho (Benê) em 07/05/2026
Alterado em 08/05/2026
Comentários