O BEIJA-FLOR URBANO
No coração da selva de pedra paulistana, dois beija-flores se equilibravam no parapeito do Edifício Itália, como se fossem executivos em pausa para o café. Lá embaixo, sirenes, fumaça e gente correndo, um incêndio em pleno centro.
Um deles, com olhar heroico, disse:
- Companheiro, este é o momento de honrar nossa linhagem! Lembra do nosso primo da floresta que tentou apagar o fogo carregando água no bico? Pois bem, chegou a nossa vez!
O outro, ajeitando as penas como quem passa gel no cabelo antes de uma reunião, retrucou:
- Ah, não, meu caro. Eu sou beija-flor urbano. Aqui tem corpo de bombeiros, caminhão com escada telescópica e até helicóptero. Não vou me chamuscar para apagar fogo de ninguém. Isso é coisa do nosso primo matuto, que ainda acredita em contos de fadas ecológicos.
Enquanto o primeiro já ensaiava mergulhos dramáticos em direção à fumaça, o segundo abriu o bico para cantarolar:
- "Cada um no seu quadrado, cada um no seu quadrado..."
E assim ficou decidido: o beija-flor urbano preferia salvar suas penas brilhantes para o próximo rolê no jardim suspenso do shopping, enquanto o primo da floresta continuava sendo o herói das fábulas.
Moral das história? Nem todo beija-flor nasceu para ser bombeiro. Alguns nasceram para tomar café em padaria chique, reclamar dos políticos e do trânsito na Marginal Tietê.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)