O ESCRITOR DE WI-FI
Hoje em dia, qualquer criatura com polegar opositor e acesso ao Wi-Fi já se acha escritor. O camarada acorda, digita três linhas sobre o trânsito e pronto: é o novo Machado de Assis, versão aplicativo. O problema é que ninguém lê, e quando lê, não entende. Mas isso não importa, porque o escritor moderno não quer ser compreendido, quer ser curtido.
A crônica virou uma espécie de selfie literária: não precisa conteúdo, basta existir. O sujeito escreve como quem posta foto de almoço, sem tempero, sem contexto, mas com filtro. E quando alguém ousa perguntar "o que você quis dizer?", ele responde com ar de gênio incompreendido: "não é para entender, é para sentir". Só que ninguém entende nada, além de preguiça.
No fim, escrever hoje é como falar sozinho no elevador: você se escuta, se admira, e acredita que os outros estão fascinados. Mas os outros só querem chegar no andar deles. E o cronista, esse herói da tecla fácil, segue convencido de que está mudando o mundo, quando na verdade só está enchendo a linha do tempo. Como alguém já disse: "Escrever é bom, mas não precisa transformar cada espirro em literatura."
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)