O PUNK E A ARARA
O ônibus seguia seu trajeto lento, como sempre, carregando histórias e passageiros como quem carrega um baú de surpresas. No banco reservado aos idosos, estava sentado um adolescente punk, exibindo como orgulho suas correntes e um cabelo multicolorido: vermelho, azul e verde, um verdadeiro carnaval capilar em plena segunda-feira.
Um senhor, já cansado de fazer o trajeto em pé no ônibus, fixava os olhos no garoto. Não era só cansaço: era irritação por ver seu assento ocupado e também de espanto diante daquela cabeleira que parecia desafiar as leis da natureza. O punk, incomodado resolve encarar:
- O que foi, vovô? Tá me olhando por que?
O idoso, sem pestanejar, responde com a calma de quem já viveu demais para medir as palavras:
- Você é meu filho.
O ônibus inteiro prende a respiração. O punk arregala os olhos, indignado:
- Tá maluco, vovô? Como poder dizer uma coisa dessas?
E o idoso, com a pontaria certeira de quem não perde a chance de uma boa piada, dispara:
- Há uns 16 anos eu transei com uma arara...e com esse cabelo aí, só pode ser nosso filho.
O silêncio dura dois segundos. Depois, o ônibus explode em gargalhadas. Até o motorista, que deveria estar atento ao trânsito, deixa escapar um sorriso. O punk, vermelho de vergonha (não o do cabelo, mas o da cara) tenta disfarçar, e larga o assento ocupado indevidamente de imediato.
E o idoso, satisfeito, encosta-se no banco reservado como quem acabou de ganhar a viagem só pelo espetáculo.
Autor da crônica: Benedito Morais de Carvalho (Benê)
A piada, desconheço o autor.