VIAJAR MAIS PRA QUÊ?
Passei cinquenta anos da minha vida viajando por esse Brasil de meu Deus. Não como turista, mas a trabalho, prestando serviços, defendendo o pão de cada dia. Encarei caminhão de feira, ônibus quebrado no meio da estrada, trem que parecia pedir aposentadoria, fila interminável em aeroporto, pernoites em hotéis e pousadas na beira da estrada. Fui me moldando aos climas de cada cidade, como se fosse um camaleão corporativo.
Hoje, quando chega véspera de feriado e alguém me pergunta: "Vai viajar pra onde?", sinto vontade de estrangular o indagante. Viajar? Eu já fui sócio das estradas, acionista das rodoviárias, cliente VIP dos atrasos de voo. Já cumpri todas as metas quilométricas que a vida podia me impor.
Agora, prefiro ficar sossegado no meu canto. Fiquei acomodado e incomodado ao mesmo tempo: acomodado porque descobri que o melhor destino é o sofá da sala; incomodado porque o mundo insiste em achar que feriado sem viagem é desperdício. Pois eu digo: viajar mais pra quê? Eu já rodei esse Brasil mais que carteiro. Hoje, meu passaporte é a poltrona e o meu visto é o controle remoto.
Minhas caminhadas se resumem ás prescritas pelo médico, trinta minutos cronometrados, ou às voltas pelas vitrines em liquidação, que também são uma espécie de terapia. Viajar é ótimo... desde que sejam os outros que viajem. Eu, não. Eu já tenho minhas milhas acumuladas na alma.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)