O CIRCO DA FORTUNA
O pobre sonhador joga como quem compra ingresso para o milagre. Cada aposta é uma esmola oferecida ao acaso, uma tentativa de subornar o destino. Ele sonha com o salto súbito da sarjeta para a cobertura, com o respeito automático que só o dinheiro arranca dos outros. Mas o que realmente compra é esperança vencida (dívidas) embrulhada em papel colorido de loteria.
O rico medíocre, por sua vez, não joga: ele encena. Gasta em roupas, carros e festas como quem pinta a própria máscara, com medo de que alguém veja o rosto nu da mediocridade. Vive em paranoia constante, como se a pobreza fosse um vírus que pudesse atravessar suas paredes de mármore. Seu maior terror não é perder o dinheiro, mas perder a plateia. A morte, para ele, não é o fim, é o vexame supremo de deixar de ser visto.
No tabuleiro da vida, pobre e rico são peças do mesmo teatro de farsas. Um se ajoelha diante da sorte, o outro diante da vaidade. Ambos escravos do mesmo patrão invisível: o medo. Medo de não ter, medo de deixar de ter. E o destino, esse palhaço cruel, gargalha no camarote: porque no cemitério não há camarote VIP, e o bilhete premiado nunca chega.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)