Benedito Morais de Carvalho(Benê)
NÃO SOU POETA, SOU UM ARRUMADOR DE PALAVRAS.
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     O CONDOMÍNIO DOS DONOS DO NADA

 

     Há vilarejos que não são vilarejos, mas currais políticos  disfarçados. Lugares onde o tempo não passa, porque o relógio está preso na parede da sala do "paizão", o patriarca que governa tudo, do altar ao balcão da mercearia. Ali, prosperidade é palavra proibida, desenvolvimento é palavrão, e quem ousa sonhar com mudança é tratado como estrangeiro indesejado.

     O padre reza, o sacristão confirma, o comerciante cobra, o coveiro enterra, o prefeito assina e o vereador aplaude, todos com o mesmo sobrenome, como se cartório tivesse virado fábrica de poder hereditário. É um condomínio fechado, não de muros, mas de sangue e sobrenome. Quem nasce fora não entra; quem ousa contestar é expulso pela porta dos fundos, sem direito a missa ou fiado.

     Essas vilas, cidades e até países são vampiros de si mesmos: sugam cada gota de vida, cada centavo de esperança, e devolvem nada além de discursos ocos e festas de inauguração de praças que nunca têm bancos. O povo, cansado, aprende a sobreviver no silêncio, porque reclamar é inútil, o dono da chave é também o dono da porta, da rua, da esquina e do cemitério.

     E assim, o lugar vai murchando, como fruta esquecida na fruteira. Não apodrece de vez, porque a casta que manda precisa manter a aparência de que há vida. Mas não floresce, porque flores exigem sol, e ali só há sombra. O curral político moderno é isso: um eterno condomínio de mediocridade, onde o futuro é sempre ontem e o amanhã nunca chega.

 

Crônica de Benedito Morais de Carvalho (Benê)

 

 

 

 

Benedito Morais de Carvalho (Benê)
Enviado por Benedito Morais de Carvalho (Benê) em 27/05/2026
Alterado em 29/05/2026
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