SALVE 1973
Roupa surrada,
sapatos gastos,
mala de couro,
vomitado na Praça Júlio Prestes,
pela Viação São Geraldo,
um corpo invisível na multidão.
Alojado no Bairro da Aclimação,
pego o elétrico Gentil de Moura
desço na Praça da Sé,
Rua Direita, Viaduto do Chá,
fluxo humano, indo e vindo,
eu, solitário e perdido
um nordestino tentando a sorte.
Av. São João me espera,
com o peso do contrato de experiência,
com a promessa do primeiro salário,
sonhando com a carteira assinada.
O coração torce,
o estômago aperta,
a cidade engole,
a cidade cospe,
mas sigo em frente.
Cidade dos sonhos,
capital das ilusões,
capital dos que chegam sem rosto.
Mas sigo,
com fé escondida no escapulário,
com esperança costurada na camisa,
com coragem que não se gasta.
Salve 1973,
salve o retirante invisível,
salve o trabalhador que insiste.
Autor: Benedito Morais de Carvalho (Benê)